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Maringá, 05 de Julho de 2010

Salvação, obra de amor - Por padre Orivaldo Robles

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Uma senhora pobremente vestida, com os pés metidos em surradas sandálias, chegava, todos os dias de visita, ao saguão de espera da penitenciária. Trazia, invariavelmente, nas mãos uma matula com uma torta de palmito e outras iguarias que sabia serem do agrado do filho preso. Sujeitava-se, embaraçada, sem saber para onde olhar, ao exame das policiais femininas, norma imprescindível, nem por isso, contudo, menos constrangedora para alguém de quarenta e cinco anos, que se despia só na presença do companheiro, ainda assim, no quarto, à meia-luz. Por vergonha e ignorância não tinha ido a um médico ginecologista até a essa idade.

 
Aceitava também, com imenso pesar, evidentemente, que agentes penitenciários revirassem seus quitutes graciosamente dispostos, no vagaroso trabalho de investigar se porventura ela não tinha tido a idéia (imagine!) de introduzir uma arma ou droga nas dependências da prisão. Desfaziam toda a beleza do embrulho.

 
Quando, finalmente, rangiam as ferragens do imenso portão se abrindo, com olhar inquieto, ela caçava o filho no meio da multidão de detentos, ansiosa por descobrir alguma escoriação em seu rosto, consequência frequente de queda no banheiro ou de futebol no pátio, nunca de briga com colega ou de cassetete de um guarda.

 
Ele, ao avistá-la, caminhava para ela com andar balançante e olhos aborrecidos. Um tanto alheio, correspondia ao cumprimento amoroso que ela adoraria expressar numa explosão do coração de mãe. Mas ele tinha mandado, na primeira vez, que ela dominasse, sob todas as formas, seus impulsos maternos.
 
Manifestações salientes de carinho não eram bem-vistas ali dentro, fossem da mulher, da namorada ou da mãe. Nunca mais ela conseguira esquecer aquele dia: tinha recuado, numa frustração de arrancar lágrimas, mas não podia criar problema ainda maior com o filho. Bastava a aflição de tê-lo, há meses, enterrado naquela sucursal do inferno.

 
Caminhavam para um canto livre do pátio. Sentados numa mureta, ele abria o pacote remexido pelos guardas. Degustava a iguaria preparada com amor, mas não dizia palavra. A alguma pergunta dela, respondia com monossílabos. Desencorajada, ela simplesmente deixava-se quedar ao seu lado.

 
Vencido o horário, ela fazia o balanço da visita. Não arrancara do filho mais que duas ou três palavras envoltas num ar de enfado. Sabe lá Deus se ele não preferia que ela não tivesse vindo. Mas era seu filho numa penitenciária longe de casa. Como podia deixar de vir vê-lo?

 
Um policial, no posto da guarda, comentou com o companheiro:

 
– Olhe esse bando de presos no pátio. Isso não tem recuperação. E são os que a gente conseguiu prender. E os outros? São milhares, milhões. Nosso mundo está perdido, não tem jeito. 

 
Ao que o outro contrapôs:
– Olhe aquela mãe sentada no pátio, ao lado do filho. Ele nem lhe dá atenção. Mas na próxima visita, ela estará, de novo, no saguão de espera, com a matula no colo, ansiosa por uma palavra de afeto, que ele, quem sabe, lhe dirá. Enquanto existir uma mãe, uma que seja igual a ela, pode ter certeza, o mundo estará salvo.

 

 

 
Padre Orivaldo Robles é sacerdote na Arquidiocese de Maringá

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