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Maringá, 20 de Setembro de 2010

Bença, mãe – Por padre Orivaldo Robles

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Ainda me surpreendo a calcular, no café da manhã, a hora melhor de sair para vê-la. Foi a rotina dos meus últimos doze anos, pelo menos. Devagar, vou-me acostumando com a idéia de que já não há necessidade. Estou aprendendo a viver sem ela.
Eram diárias e, infelizmente, curtas as visitas. Como, no seu tempo, dom Murilo reconhecia, os padres de Maringá trabalham muito. Pouco mais, pouco menos, andam todos sobrecarregados. Quem menos aproveita a nossa companhia são justamente os de casa. Nenhum dos meus expressou, é bem verdade, sequer uma vez, a mais leve queixa. A começar pelo pai, falecido há 28 anos. Mas bem que eles gostariam de me ver a seu lado por mais tempo.
 
Tomar a bênção, ao levantar e ao deitar, foi das mais puras formas de educar que, lá na infância, pai e mãe nos ensinaram. Não sei quantas famílias a conservam. Parece-me que hoje alguns filhos sentem vergonha. Acham que é pagar mico. Em casa, cultivamos o hábito até o dia 7 passado. Então, aos 94 anos, no conforto da fé e rodeada dos filhos, a mãe voltou para a Casa do Pai.
 
Surpreendeu-me a quantidade de gente que tomou conhecimento. Continuam me surpreendendo os muitos sinais de apreço. Pessoas de quem nem aprendi o nome oferecem seu emocionado pesar. Lembram-me o compositor Atahualpa Yupanqui: “Yo tengo tantos hermanos que nos los puedo contar”. Por bondade deles ─ não que eu mereça ─ também os tenho. Amigos-irmãos.
 
Nobreza de sentimentos é marca do nosso povo. Tanto a gente vê que se acostuma. Como se fosse igual no mundo inteiro. Padre Geraldo Schneider me alertou para a diferença. Na Europa, disse, o povo é frio, distante. Cada um cuida da própria vida. Não como no Brasil, onde todos mostram carinho.
Faz tempo, me intriga a pessoa diferente que a mãe foi. Como cantou Piero (“Mi Viejo”), ela também viveu em outro mundo. O tradutor italiano Ettore Lombardi diz: “Levou aos ombros o peso de uma vida sem alegrias”. Assim como o pai, também ela. Mais do que dele, sinto dela um inútil dó, por não ter conhecido coisas comuns a tanta gente. Triviais, sem graça até, para outros. Para ela, luxo impossível. Sentimentalismo barato, vão dizer. Mas não é de hoje que venho sentindo.
 
A mãe nunca esteve num cinema, num teatro, numa biblioteca. Num hotel, num restaurante, numa praia. Numa sala de concertos, num aeroporto. Avião só viu passando no céu. De carro, sim, ela andou. Mais, talvez, para o hospital do que a passeio. 
 
Desde a infância até quando se pôde mover, entregou-se à única coisa que sabia. Que lhe preencheu os dias e minou as forças. Ao trabalho. Com ela se foi o “pão da tia Lúcia”, que os primos não se cansam de lembrar. Era célebre, único mesmo, o seu pão. Há muito, deixara de fazê-lo.
 
Nas antigas refeições em família todos nos sentávamos; ela, não. De prato na mão, comia em pé, cuidando que nada lhe escapasse ao olhar. Décadas a fio, a mesma ladainha: “Senta, mãe”. Ela, como se não ouvisse: “Olha, aí tem o frango (a verdura, o ovo, a batatinha, o que fosse), que você gosta. Tira mais. Você não comeu nada”. Aborrecidos, por vezes, sem muita delicadeza, deixávamos escapar mais reclamação que resposta: “Ih, mãe, tô vendo; quando quiser, eu pego”. Como um clichê, dia seguinte, no mesmo horário, tudo se repetia até nos pormenores. Assim foi enquanto ela teve algum controle da casa.
 
Não sei se é verdade o que dizem. Que mães são todas iguais, só muda o endereço. Não sou o único a lembrar essas coisas. Só que agora doi bem mais do que antes.
 
 
 
 
 
 
Padre Orivaldo Robles é sacerdote na Arquidiocese de Maringá

 

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