A infância do vigário do bom Deus
Como bem sabemos, o nosso querido papa, Bento XVI, convidou toda a Igreja para viver o Ano Sacerdotal. Um tempo forte de oração do padre, com o padre e para o padre. Um tempo forte para toda a igreja redescobrir a beleza do sacramento da ordem, bem como despertar as vocações e organizar a Pastoral Vocacional. Querendo meditar sobre a fidelidade – “Fidelidade de Cristo, fidelidade do Padre” – o Papa busca na história do Vianney uma inspiração para este Ano. Este é igualmente o padroeiro da nossa cidade, e padroeiro da primeira paróquia de Paiçandu. Queremos assim, ao longo deste Ano conhecer um pouco mais da vida, da história, dos ensinamentos deste que se tornou inspiração para todos os padres, e o faremos com várias atividades que estão sendo organizadas, mas, particularmente por meio do nosso informativo. Pra começo de conversa, com a ajuda da sua irmã Margarida, vamos conhecer um pouco dos seus primeiros quatro anos.
A fé veio do berço
Seus avós, Pedro Vianney e Maria Charavay, viviam em Dardilly, pequena aldeia próxima a Lião. Agricultor e bom cristão, famoso por ser refúgio aos pobres que lhe batiam à porta. Os filhos eram educados para verem no rosto de cada irmão pobre o próprio Jesus Cristo.
No dia 11 de fevereiro de 1778, em Ecully, povoado visinho de Dardilly, Mateus Vianney desposava Maria Beluse. “Se Mateus era cristão fervoroso, sua jovem esposa trazia como o melhor dos dotes uma fé operante e esclarecida”. Foi uma união abençoada por Deus, e geraram seis filhos, todos consagrados à Virgem Santíssima, ainda antes mesmo de nascer; “Catarina que, casando-se muito jovem, morreu santamente pouco depois; Joana Maria, que foi para o céu apenas com cinco anos; Francisco, futuro herdeiro da casa paterna; João Maria, mais tarde somente conhecido pelo nome de Cura d´Ars; Margarida, a única dos irmãos Vianney que sobreviveu, vivendo 91 anos; enfim, um segundo Francisco, apelidado cadete, que, assentando praça, deixou Dardilly para nunca mais voltar”.
O nosso João Maria veio ao mundo por volta da meia noite do dia 8 de maio de 1786, sendo batizado na paróquia de Dardilly no mesmo dia. Foram-lhe padrinhos o tio paterno João Maria Vianney e Francisca Martinon. Foi o padrinho que lhe deu o próprio nome.
Quando falamos que a fé veio do berço, é de extrema necessidade falar da sua mãe, que foi uma catequista de encher os olhos. Quando se desocupava dos afazeres domésticos, instruía o filho com palavras infantis e expressões apropriadas à sua idade. Ainda bem pequenino, quando começou a distinguir os objetos exteriores, mostrava-lhe objetos religiosos, crucifixo e imagens piedosas que ornavam a casa, ensinando-lhe a traçar o sinal do cristão, que em pouco tempo adquiriu hábito. “Contava 15 meses, quando, certa ocasião, tendo-se a mãe esquecido de o ajudar a fazer o sinal da cruz, antes de lhe servir a sopa, o menino cerrou os lábios acenando com a cabeça, várias vezes, que não. Maria logo entendeu o que o filho desejava. Apenas tomou-lhe da mão e os lábios cerrados se abriram por si mesmos”. Como diz a história: “nas coisas de piedade, foi um menino precoce”. Com quase dois aninhos, atendendo o convite da família para a oração da noite, com mãozinhas postas era o primeiro a ajoelhar-se com devoção. Ao recolher-se, existia todo um ritual: a mãe o deitava, falava-lhe sobre o presépio, o Menino Jesus, a Virgem, os Anjos... depois o abraçava.
No verão, Mateus Vianney saía para o campo de manhã cedo. Mas tarde se lhe ajuntava a esposa com todo o bando infantil. Os filhos também o acompanhavam. “Catarina e Francisco, com uma vara na mão, iam um pouco adiante, tocando as vacas e ovelhas da granja. Seguiam João Maria e Margarida, montados num burrico. Chegados ao campo, as crianças se atiravam sobre a relva ou vigiavam os animais na pastagem. “João Maria, alegre e brincalhão, animava os jogos”. João não era uma dessas crianças que carecem da graça e esperteza próprias da idade. Naquele rapazito de olhos azuis, cabelo escuro, tez morena e olhar vivo, a piedade precoce não excluía de maneira alguma certa petulância natural. “Nasceu com um caráter impetuoso”; mas, tão sensível e nervoso, com o tempo e esforços adquiriu a perfeita doçura, aprendendo a dominar-se. Isto lhe garantiu, tornar-se modelo para os irmãos. Dizia a mãe quando os irmãos não a obedeciam prontamente: “vede João Maria, é mais obediente do que vocês”.
Aprendeu com a família a dominar seus desejos e a partilhar seus pertences. Por dar, ao choro, o seu lindo rosário, que amava tanto, ganhou da mãe uma pequena imagem de madeira de Maria. “Oh! Quanto eu amava aquela imagem, nos dirá 70 anos mais tarde. Não podia separar-me dela... A Santíssima Virgem é a minha mais antiga afeição; amei-a mesmo antes de a conhecer”.
João Maria tinha um exemplo de amor, devoção, piedade e zelo pelas coisas do alto dentro da sua própria casa. Os pais, particularmente a mãe, foram suportes para o crescimento de sua fé. João era para a mãe a companhia mais agradável para ir, quase diariamente, a santa missa, que aos quatro anos, tão precoce para a piedade, “já sentia fome de Deus”. Nas celebrações, ajoelhado ao lado da mãe, aprendia toda as partes da missa, tomando gosto pela celebração. Ao primeiro toque do Ângelus, se ajoelhava, punha sobre uma cadeira sua querida imagem e orava diante dela com recolhimento. As vizinhas ouviam-no rezar em voz alta e diziam aos pais: “sabe bem as ladainhas; será bom encaminhar o vosso João Maria, para ser sacerdote ou religioso”.
Mais tarde, quando o felicitavam por ter adquirido tão cedo o gosto pela oração e pelo altar, respondia com emoção e lágrimas: “Depois de Deus, devo á minha mãe. Era tão boa! A virtude passa facilmente do coração das mães para o coração dos filhos... Jamais um filho que teve a dita de ter uma boa mãe deveria vê-la, ou pensar nela sem chorar”.
Pe. Reginaldo Teruel
Paroquia Santo Cura D'Ars - paiçandu
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