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Maringá, 16 de Outubro de 2010

O discurso – Por padre Orivaldo Robles

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Em 1952, tirei o “diploma” do grupo escolar, o mais alto grau de escolaridade da minha cidadezinha no interior paulista. Nunca ouvira falar de Dia do Professor. Mas ele era querido pelos alunos e respeitado por todos os adultos. Na minha “formatura”, dona Maria José, a professora, escolheu-me para o discurso redigido, evidentemente, por ela. Cabia-me aprendê-lo de cor e, na ocasião, diante do cinema apinhado de gente, declamá-lo com o garbo das minhas calças curtas e do paletó de meu irmão. Em casa de pobre, roupa do primeiro filho passa ao segundo. Com naturalidade e sem queixa.
 
 
Ano anterior, para o diploma, meu irmão recebera vistoso terno azul-marinho que, agora, por economia, claro, ia passar para mim. Mas minha pouca estatura atrapalhou. Dona Maria José reprovou as calças compridas. O alfaiate mandou, então, meu pai comprar quarenta centímetros da mesma casimira, suficientes para as calças curtas. No dia do diploma, enverguei uma fatiota de deixar Empório Armani no chinelo.
 
 
Lancei-me com furor à decoreba do texto. Os de casa serviam de cobaias. O pai me ouvia como se novo Demóstenes ou Cícero discursasse ali, na sala. Espalhava para quem quisesse ouvir – e para quem não quisesse também – que seu filho seria o orador daquele ano. Era, para ele, o apogeu da glória. Para mim, vergonha de matar.
 
 
Num domingo pela manhã, veio a nossa casa um vizinho, seu André. Num entusiasmo incontido, o pai se pôs a enaltecer o novo orador. Até que, lá na cozinha, escutei horrorizado:  
 
 
– Vem cá, meu filho, faz o discurso pro seu André ver.
 
 
Meus pés cravaram no chão. Uma tonelada em cada um. Mas ele insistiu. Seguro do afeto que nos unia, era-lhe impossível imaginar uma recusa. Ao seu amor, supunha, eu não seria capaz de fazer uma desfeita.
 
 
Pois fui. Ele pediu bem uma meia dúzia de vezes. Em resposta, sempre o silêncio. O ar carregado desanuviou-o o seu André, que inventou uma desculpa, despediu-se e deu no pé.
 
 
Eu era um verme à espera do pisão que me esmagasse.  Da goela aberta da terra, que me engolisse. Da surra de deixar vergão, que sentia merecer. Bobagem. De pequenos, ele nos dera, com justiça e moderação, alguma palmada. Mas era, há muito, passado. Agora usava argumentos que compreendíamos e brandura na voz. De jeito nenhum ia me bater. Arrasava-me não ter como apagar a dor e a vergonha que lhe causara.
 
 
Não houve repreensão. Melhor tivesse havido. Só uma queixa, mais dolorida que mil chicotadas:
 
 
– Puxa, filho, eu faço tudo para atender o que você pede. Esperava receber o mesmo de sua parte. Teu pai não frequentou escola. Teu diploma me encheu de orgulho. Queria tanto que um amigo ouvisse meu filho fazer um discurso. É pedir demais? 
 
 
Eu roubara a um pobre a única riqueza que podia conseguir. Fui chorar lá fora e andei alongado até a noite. Por dias, não ousei fitá-lo nos olhos.
 
 
Na noite da entrega do diploma, um jacuzinho do sítio ─ de rosto afogueado e eloquência de tribuno ─ discursou para um só ouvinte de toda a platéia, que o escutava como ao mais fascinante orador do mundo.
 
 
 
 
 
 
Padre Orivaldo Robles é sacerdote na Arquidiocese de Maringá

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