Os mais antigos se lembram do Pe. João Novaes, fundador e técnico do “Corinthinha”, no qual jogaram respeitáveis senhores de hoje. Ainda seminarista, dirigi uma das duas kombis em que levamos aquela equipe para partida amistosa contra os juvenis do Santos F.C., lá na Vila Belmiro. Massacraram a gente: 13x1.
Douglas e Negreiros, que viriam a fazer história na equipe titular, só não fizeram chover naquele dia. Mesmo com o placar esdrúxulo, quem impressionou o técnico santista foi o goleiro Flávio, pelas defesas que fez. O homem queria, porque queria o garoto no seu time. O pai, Dr. Flávio Pasquinelli, que dirigiu a outra kombi, nem quis conversar sobre o assunto.
O futebol marcou, no passado, a vida de muitos padres e pastores. Nos anos sessenta, o pastor João Furtado, da 1ª Igreja Presbiteriana Independente de Maringá, pelo que jogava, podia deixar na reserva muito goleiro profissional. Pe. João Augusto Sobrinho, do clero de Curitiba, ainda estudante no Seminário do Ipiranga, em São Paulo, todo sábado passava ao porteiro uns trocados para que lhe trouxesse, escondida, na segunda-feira, a Gazeta Esportiva. Os finais de semana eram passados no seminário. Televisão não havia, jornal e rádio eram proibidos. Com a cumplicidade do porteiro, o palmeirense Sobrinho era dos seminaristas o mais informado sobre futebol.
Há anos, trabalhou em Jandaia do Sul Pe. Aristides Pimentel, que depois deixaria o ministério. Transferido para paróquia de bairro, em São Paulo, num domingo tocou-lhe ministrar o batismo na hora de jogo do campeonato. Corintiano fanático, deixou o radinho de pilha com um coroinha para saber o resultado. Ao ouvir grito de gol, foi saber quem fizera. De volta à pia batismal, sapecou: “Roberto, eu te batizo...”. A mãe interveio: “O nome não é Roberto”. E ele: “É, sim. O Roberto Rivelino é que marcou. Só batizo com esse nome”.
O futebol era romântico, dramático, apaixonante. Não a pasmaceira de hoje nem o comércio em que se transformou. Os seminários primavam por duas coisas: bom coral e bom time de futebol. Montá-los não era problema: dezenas de saudáveis garotos e adolescentes (seminário menor) ou de jovens (seminário maior), rígido horário para dormir, levantar, rezar, comer, estudar, praticar esporte. Bebida, cigarro, noitada ou outro abuso, nem sonhar. Vivíamos concentrados, em contínua e séria formação humana, espiritual, intelectual, moral, cultural... Para canto e esporte bastavam ensaios e treinos.
Alguns, é verdade, exageravam. Fominha por bola, lá em S. J. Rio Preto, o colega Nelson Peloso Gomes, cara a cara com o goleiro, encheu o pé. Acordou num rugido de dor. O chute foi na parede ao lado da cama. Nem viu se tinha ou não feito o gol. Ganhou um pé enfaixado e meses mancando. Pior: só vendo, de fora, os outros jogarem.
Em Curitiba, entrou para o Seminário São José, em 1958, um alemãozinho de cabelo escorrido e branco, feito espiga de milho. Jogávamos de chuteiras; ele, descalço. Driblava como um capeta. Mais velho, posto em outra divisão, eu não cheguei a enfrentá-lo. Ainda bem; teria sido mais uma vítima de seus humilhantes dribles. Nós o chamávamos Dirceu, seu nome. No Coritiba F.C. fez fama com o sobrenome Krüger. Aos onze anos, no seminário, já prenunciava a lenda que a crônica esportiva imortalizaria como a Flecha Loira.
Padre Orivaldo Robles é sacerdote na Arquidiocese de Maringá
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