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Maringá, 03 de Novembro de 2011

Descansem em paz

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Perguntou-me um senhor a opinião
da Igreja Católica sobre a cremação de cadáveres. Não há hoje nenhuma repulsa. Objeção
haveria se, como aconteceu no passado, ela exprimisse intenção de negar a ressurreição
dos mortos, dogma de fé (=verdade revelada por Deus, indiscutível, pois). Mais
que com sentimento religioso, a cremação atual tem a ver com problemas de
espaço urbano e de meio ambiente.
 
Sepultar os mortos é uma prática que
se perde nas brumas da História. Expõe o dinamismo religioso arraigado no coração
humano. Ensinam Rudolf Otto (1869-1937) e Mircea Eliade (1907-1986) que a morte
pertence ao universo do sagrado, área exclusiva da divindade, na qual o homem avança
às apalpadelas, como ser pequeno, confuso, cheio de temor. Todas as religiões
cultivam algum modelo de piedosa convivência com o fenômeno da morte.
 
Até o século 3°, na Roma dos
césares, os cristãos, pobres em sua maioria, sepultavam seus mortos junto às
grandes vias imperiais. Desses lóculos cavados na terra, o solo vulcânico conserva
galerias, chamadas catacumbas, visitadas até hoje. Finda a perseguição, em
muitos lugares, defuntos foram sepultados no interior das igrejas. Com o aumento
de fiéis, criaram-se, ao lado dos templos, locais reservados a esse fim. Durante
longo período, os cemitérios foram extensões das igrejas paroquiais.
 
Exemplos se veem ainda, inclusive
no Brasil. Com a separação entre Igreja e Estado, este regulamentou os serviços
fúnebres. Além da localização geográfica, tornaram-se objetos de legislação
específica matérias ligadas à saúde pública como uso do solo, transporte,
edificações, condições de acesso etc. Em sociedade organizada não se relega ao talante
de cada pessoa ou grupo a forma de cuidar dos seus mortos.
 
Não sou muito fã do Dia de
Finados. Na verdade, nem dos dias instituídos para homenagear pai, mãe,
professor, índio, criança... Entendo que amor e gratidão não devem ser
ocasionais. Não vejo razão para lhes assinalar dia exclusivo. O domingo, dia do
Senhor, é um caso diferente. Como os feriados religiosos ou cívicos. Estes não se
prestam à gananciosa exploração comercial.
 
Datas especiais, em vez, se transformam,
quase sempre, em motivo de aborrecimento. Alguém aprova o rebuliço que toma
conta de qualquer cemitério do Brasil num Dia de Finados? Pergunte a uma criança,
a um idoso, a quem sofre com excesso de gente, de veículos ou de barulho. Duvido
que um só se mostre satisfeito com os atropelos desse dia. Sem esquecer que, quase
sempre, à tarde, chove. Aí o fuzuê atinge o insuportável.
 
Em Finados cemitérios se
convertem em ponto de romaria. Da horda que os invade fazem parte centenas, até
milhares, de pessoas vindas de longe. Não existe meio de chegarem a pé. Então,
flanelinhas e flanelões deitam e rolam. Achacam, na maior cara dura, os pobres
visitantes, que acabam vítimas de autênticos assaltos. Pelo jeito, não existe
poder nenhum, em todo o País, com capacidade de dar fim a esse abuso. Não
bastasse, fervilham vendedores dos mais variados artigos. Flores, velas, refrigerantes,
sorvetes, frutas, guloseimas e salgadinhos de nubilosa origem e asseio
discutível, água... Tudo com preço de 1° Mundo.
 
Como qualquer cristão, eu respeito
a memória dos mortos. Sufrago-os com minha pobre oração. O pai e a mãe ganharam
belo túmulo. Que eu visito em outros dias. Quando se faz possível conservar o
silêncio. E fazer uma prece para que descansem em paz.
 
 
Padre Orivaldo Robles é sacerdote na Arquidiocese de Maringá

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