Estamos certos de que
Jesus Cristo não concedeu nenhum título honorífico para os seus amigos mais
chegados. Ele ensinou que a maior titulação de um cristão é o serviço oblativo
e gratuito ao próximo. Ele deu o exemplo desta tarefa essencial do cristão. E
determinou a seus discípulos que, depois de terem feito tudo aquilo que devem
fazer, considerem-se "servos inúteis", pois fizeram o que deveriam
ter feito (Cf. Lc 17, 10).
Porém, no processo histórico
de institucionalização da comunidade eclesial, vão aparecendo titulações dadas
aos servidores do povo de Deus, para determinar a missão e função que devem
exercer em vista do bem da comunidade eclesial.
No decorrer da História
da Igreja, dentre os vários serviços e títulos, aparecem os "legados
apostólicos", homens que representavam o Papa em missões, situações e lugares em que o mesmo não podia estar
presente. Assim, em nome e no lugar do Papa, era garantida a comunhão e a
unidade da Igreja. Com o passar do tempo, lá por volta do século sexto da era
cristã, esses homens foram chamados de "cardeais".
A palavra cardeal vem
da língua latina. Originalmente, significa cardo, dobradiça, eixo e ponto
principal. Do significado original do nome, a gente começa entender melhor qual
deve ser o significado do cardinalato. Quem é feito cardeal é feito facilitador
da comunhão eclesial, a semelhança de uma dobradiça, que facilita a abertura de
uma porta.
Quem é feito cardeal é
feito dobradiça daquela única porta pela qual as ovelhas passam para buscarem
pastagens fartas, para que todos tenham "vida em abundância" (Cf. Jo
10, 7-10)... A dobradiça é importante para movimentar a porta. Mas, o mais
importante é a porta pela qual podem entrar as ovelhas do Bom, Único e Supremo
Pastor.
Hoje, o título, a
função e a missão de cardeal são conferidos a alguns bispos e presbíteros que
colaboram diretamente no governo central da Igreja Católica ou que foram
distinguidos nalgum serviço em defesa da fé e da vida humana. São escolhidos
pessoalmente pelo Papa.
Designados para
serviços de coordenação geral da chamada Cúria Romana ou em dioceses
importantes e significativas para a Igreja. Lá na Cúria Romana, assumem as
secretarias, congregações e os diversos dicastérios - organismos semelhantes aos
ministérios de governos civis - que articulam a comunhão eclesial; a promoção
da paz, da justiça, da caridade organizada; a unidade do culto e dos ritos; o
diálogo inter cultural e religioso; o ecumenismo; a vida dos bispos,
presbíteros, diáconos e a das pessoas de especial consagração etc.
Os cardeais são os
responsáveis primeiros pela eleição de um novo Papa. É do meio deles, reunidos
em conclave, que se elege um novo Papa. São aptos para tal os cardeais que
ainda não atingiram 80 anos. Nas cerimônias em que os cardeais são
oficializados para todo mundo - o consistório -, recebem um chapéu próprio, de
cor vermelha púrpura, para lembrar-lhes do compromisso de darem a vida pela
causa da Jesus Cristo e da Igreja, até o derramamento da última gota de sangue,
se as circunstâncias assim o exigirem. Recebem, também, um anel diferenciado,
indicando a efetiva e afetiva comunhão com o Papa e com o todo da vida e da missão
da Igreja.
No consistório de 18 e
19 de fevereiro, conclamado por Bento XVI, teremos a alegria de escutar o nome
de um único cardeal latino-americano. Trata-se de Dom João Braz de Aviz, nascido em Santa Catarina, mas criado aqui
perto de nós, em Borrazópolis. Terceiro
arcebispo metropolitano de Maringá.
Ficou conosco pouco
tempo. Um ano e meio. Mas neste pouco
tempo deu para perceber a grandeza de alma desse pastor, "filho de
açougueiro", como ele mesmo gosta de relembrar, que entende o pastoreio do
rebanho de Jesus Cristo como tarefa que deve encarnar a humanidade de Deus nas
situações concretas da vida humana... Se estivesse em vigor o Código Canônico
de 1917, ele nem teria sido padre católico. Dentre alguns impedimentos para
receber a sagrada Ordenação Sacerdotal, no referido Código, estavam os filhos
de açougueiros...
Quem conhece um pouco
da grande alma do cardeal Aviz, sabe bem de seu empenho nas causas da
evangelização. E agora como "Prefeito", isto é, como responsável
geral para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica,
poderá contar ainda mais com o homem centrado nas coisas do Reino de Deus e da
Igreja, tendo sempre em mira a construção da comunhão eclesial e a valorização
da diversidade e universalidade dos carismas.
Monsenhor
Júlio Antônio da Silva é sacerdote na Arquidiocese de Maringá
Na foto: Padre Júlio, Dom Anuar, Dom João, Dom Jaime Luiz Coelho com o Papa João Paulo II no Vaticano
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