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Maringá, 24 de Maio de 2010

O mais feliz - Por padre Orivaldo Robles

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Há muitos anos, num país distante, havia um rei bom e justo. Seu reino, por isso, vivia em paz e ele era muito amado pelos súditos. Lá um dia, por misteriosa razão, o rei foi acometido de inexplicável tristeza. Fechou-se num mutismo de causar dó. Nem queria alimentar-se.

 
Mobilizaram-se os sábios para devolver-lhe a alegria. Tentaram tudo, mas nada dava certo. Por fim, trazido para observá-lo, um velho a quem se atribuíam especiais dotes de conhecimento, sentenciou:

 
- O rei voltará a sorrir quando vestir a camisa do homem mais feliz do reino. À pressa, foram despachados emissários para os extremos do reino e até para reinos vizinhos. Mas nenhum conseguiu encontrar o homem. Ele parecia simplesmente não existir.

 
Desanimados, voltavam alguns para casa, quando ouviram um canto de grande alegria. Era um lenhador de torso nu, suado da cabeça aos pés, que manejava o machado com destreza. Sem parar de cantar, iluminava o rosto por belo sorriso.

 
Foram perguntar-lhe se era feliz e quanto. A resposta deixou-os encantados: - Em todo o reino não há ninguém mais feliz que eu. Chegara ao fim a procura. Contaram o que os trouxera ali e pediram-lhe emprestada uma camisa. Sem deixar de sorrir, um pouco sem jeito, o homem disse:

 
- Impossível. Eu não tenho camisa. A conhecida historinha veio-me à lembrança ao ouvir de um amigo, a quem perguntei se ia bem: - Vou, graças a Deus. Setenta anos, com saúde e trabalhando. Não fiquei rico, mas posso tomar minha cervejinha. Que vou querer mais?

 
Para economistas a afirmação soa como heresia. Dirão: Conversa de perdedor. Gente assim não progride. Progresso brota da ambição, da conquista do que ainda não se tem.   
No mundo dos negócios, é assim que funciona. Progredir é ganhar dinheiro, tornar-se conhecido e admirado, freqüentar altas rodas, desfrutar de poder. Não há um só homem ou mulher que, tendo os meios, não lute para adquirir mais do que precisa.

 
O estritamente necessário não satisfaz. No fundo do coração carregamos a ânsia de acumular. De juntar mais, porque ainda não temos o bastante. Há sempre uma sensação de incompletude, que nos faz sofrer. Não um sofrimento qualquer, mas daqueles de tirar o sono e fazer a vida perder a graça.  O desejo é um saco sem fundo. Suficiente, para nós, é o que ainda está no sonho, não o que temos nas mãos.

 
Daí porque, em toda a parte, reina um grosseiro jogo de competição. O “homo homini lupus” (= O homem é um lobo para outro homem) de Plauto, retomado por Hobbes, descreve a humanidade de hoje, não a do tempo deles. Hoje, competição feroz é virtude. Quem não a aceita é covarde. Um fraco. São Paulo ensina: “Não trouxemos nada para este mundo, como também dele não podemos levar nada. Então, tendo o que comer e com que nos vestir, fiquemos contentes” (1Tm 6, 7-8).

 
Contra os ditos intelectuais, que justificam a guerra por quantidade sempre maior de dinheiro, o apóstolo não abre mão: “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro” (id, 6,10).

 

 

 
Padre Orivaldo Robles é sacerdote na Arquidiocese de Maringá
 

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